HistóriasO nosso mel vem da montanha

https://conto.pt/wp-content/uploads/2019/05/autocolante_medio.png

Fizemo-nos à estrada para lhe contar tudo sobre a produção do nosso mel. Vestimos os fatos de apicultores e corremos todos os riscos para que vocês não tenham que correr. E mesmo assim, ficam a saber tanto como nós. Conversámos com o nosso apicultor e foi isto que descobrimos.

Faça o chá e as torradas e deixe o mel por nosso conta.

O mel produzido no Marão tem alguma caraterística da região, que o faça diferente dos outros produzidos em Portugal?
Apicultor: Sim. O mel de montanha tem características específicas. Ou seja, nós temos aqui uma linha de altitude que é o Gerês-Cabreira-Marão que vem do Minho até aqui e que nos dá um mel extremamente diferente dos méis produzidos a nível nacional porque tem vegetação específica de montanha. Normalmente são a urze e o castanheiro que são espécies que existem em altitude. A zona de Montesinho tem um mel muito semelhante ao nosso embora tenha algumas características diferentes. Os méis do litoral têm normalmente muito eucalipto e os do interior, das Beiras e Alto Alentejo têm muito rosmaninho. No Algarve, temos principalmente laranjeira e rosmaninho e algum medronho se vier da Serra Algarvia.

Tem noção de quantos apicultores existem na região?
Apicultor: Não faço ideia. 85% a 90% dos apicultores a nível nacional praticam a atividade comohobbie ou como alguns um pequeno complemento monetário. Efetivamente ter 20 ou 30 colmeias para quem tem uma profissão e trabalha na apicultura ao fim de semana pode ser um hobbie, comum retorno interessante.

Por essa mesma razão, acha que é fácil atrair as gerações mais novas para a produção de mel?
Apicultor: É muito fácil e há muita gente nova na apicultura. Aliás, as pessoas novas que se dedicam à apicultura costumam ser mais eficazes que as pessoas mais velhas. Mais eficazes no sentido em que são mais recetivas à informação, ou tentam informar-se de forma mais eficaz e profunda. Não diria que são mais dedicadas mas adaptam-se melhor à necessidade. As pessoas mais velhas têm alguns vícios, algumas regras que nem sempre são as mais adequadas.

Desde a produção de mel das abelhas até chegar ao nosso frasco, quanto tempo passa?
Apicultor: Podem passar 24 horas, como podem passar 24 meses. Nunca são 24 meses porque não há produção suficiente para ter o mel guardado tanto tempo. Posso tirar o mel hoje, extraí-lo, deixá-lo a decantar de um dia para o outro e embalá-lo no dia seguinte sem problema nenhum.

“AS ABELHAS VÊM COM AS ALÇAS, MAS NÓS FUGIMOS, COMO FIZEMOS HÁ BOCADO.”

Pode falar-nos um pouco dessas etapas?
Apicultor: Vou às colmeias e tiro as alças que já estão com o mel que nós dizemos estar “maduro”. O mel está operculado, está pronto. As abelhas vêm com as alças, mas nós fugimos, como fizemos há bocado (entre risos). As abelhas ficam um bocado aceleradas mas nós varremo-las. Tiramos os quadros limpos, sem abelhas e pomos em alças e depois tapamos para elas não estarem sempre a
entrar. Levamos essas alças para a extração, aqueles quadros são desoperculados, ou seja, aquela película de cera que tapa o mel é cortada superficialmente tira-se o favo com o mel à vista, entra no extrator e é extraído por força centrífuga. Conforme é extraído, começa a escorrer, passa nuns filtros de rede e fica nuns bidões a respirar. Ao fim de dois ou três dias é embalado.

Numa colmeia existem quantas abelhas-rainha? Como funciona a organização numa colmeia?
Apicultor: Uma colónia tem uma rainha. Uma colónia é uma colmeia, é o conjunto das ceras, da colmeia, dos animais. Uma colónia tem uma rainha a pôr. Podem nascer várias mas só vai perdurar uma porque a mais forte vai eliminar as outras.A s rainhas fazem postura. A rainha é fecundada durante os voos nupciais, durante um dia pode fazer um, dois, três, quatro voos e é fecundada podendo ir de sete a 25 machos que fecundam a rainha. O esperma do zangão vai ficar armazenado numa bolsa que se chama espermateca e vai perdurar até se esgotar ou até a rainha morrer. Os ovos que a rainha produz são fecundados com esse esperma para nascer fêmeas, obreiras. Para nascer machos os ovos não são fecundados. O ADN da rainha passa a 100% para os machos, isto faz com que se reduza a probabilidade de
consanguinidade. Quando as obreiras entendem que determinada rainha está velha, exausta ou morreu, produzem uma nova rainha. Entre o 1º e o 3º dia de larva, a alimentação dada pelas abelhas é igual para todas. Para produzir uma rainha, uma larva começa a ser alimentada com geleia-real enquanto as outras continuam a ser alimentadas com pólen e mel.

Temos uma última pergunta. Poderia falar-nos um pouco da história da produção de mel em Portugal?
Apicultor: Nós temos uma produção de mel que vem desde a Idade Média, portanto existiam (e ainda existem) os muros que faziam a proteção dos apiários, os chamados “muros dos ursos”. Os apiários não eram colmeias, eram cortiços, uns cilindros em cortiça e o mel era produzido aí e nós temos vestígios desses muros e doutros utensílios desde a Idade Média. Não sei exatamente a história mas sei que a apicultura moderna teve um desenvolvimento grande na Europa desde há cerca de duzentos anos, por causa de um senhor chamado Langstroth que descobriu uma coisa muito importante – o “espaço-abelha”. O “espaço-abelha” é o espaço que a abelha cria e gere para
produzir aquilo que lhe interessa, seja criação seja reserva alimentar. Esse senhor descobriu que com a gestão desse espaço conseguia induzir a abelha e o enxame a produzir mais criação ou mais mel em função daquilo que era o interesse. Criou a chamada “colmeia móvel” que são estas colmeias que vocês viram que têm aquele espaço interior entre quadros devidamente padronizado para que a gente consiga produzir aquilo que quer.